Só IA e big data para lidar com a informação disponível, diz médica

Tecnologia requer dados bem coletados e integração nacional entre os sistemas de saúde

Graças à crescente informatização da saúde e ao volume gigantesco de dados clínicos e genéticos disponíveis, o uso de técnicas de inteligência artificial é parte de uma revolução no tratamento do câncer. No entanto, aspectos regulatórios, tecnológicos e culturais importantes ainda são uma barreira para a eficiência e a adoção mais ampla destas técnicas.

A adoção da inteligência artificial e o uso de big data na luta contra a doença foram discutidos em um painel na quarta edição do seminário Tecnologia Contra o Câncer, promovido pela Folha, com patrocínio do laboratório Roche e apoio do Hospital Sírio-Libanês e da farmacêutica Abbvie.

As duas tecnologias estendem os limites impostos pelo cérebro humano e por sistemas de computação tradicional, ambos incapazes de lidar com toda a informação disponível. Segundo Mariana Perroni, médica e coordenadora de Healthcare Transformation, da IBM, dados mostram que um oncologista precisaria estudar cerca de 20 horas por dia para se manter atualizado na literatura de sua área, diz ela.

Perroni deu um exemplo de como a inteligência artificial encurta processos e preços: a leitura do sequenciamento genético de um paciente com câncer caiu de 160 horas (mais ou menos uma semana) para 15 minutos e por um custo 75% menor.

Francisco Sapori, cientista da computação e especialista da área de Health da Microsoft, mencionou outro caso em que a tecnologia da informação conjugou maior rapidez com menor custo. O processo de demarcação da região a receber radioterapia, que normalmente demora de 40 minutos até duas horas, foi reduzido a alguns segundos e poucos cliques.

“A gente já vê sinais de aprendizado da própria ferramenta, que passa a perceber relações que nem na literatura estão”, declarou Pedro Meneleu, superintendente-geral do Instituto do Câncer do Ceará (ICC), relatando o uso bem-sucedido do sistema da IBM Watson for Oncology.

Segundo Meneleu, um estudo preliminar retrospectivo com 200 pacientes revelou que, em 77% dos casos, o computador apontava o tratamento efetivamente adotado pelos especialistas. “Meu índice pessoal não chegaria a 30%.”

Paulo Hoff, diretor-geral do Instituto do Câncer de São Paulo Octavio Frias de Oliveira (Icesp), concorda com o potencial das ferramentas de inteligência artificial, mas ressalva que elas não funcionam sem dados bem coletados ou integração nacional entre os sistemas de saúde.

“No nosso estado [SP], menos da metade dos serviços que tratam câncer está informatizada. Nós estamos muito longe da promessa de incluir os dados de todos os pacientes nessa análise.”

Outro aspecto essencial para o sucesso das novas tecnologias é a interação entre computador e especialista, uma opinião compartilhada por todos os participantes do painel.

“Hoje, esses sistemas servem muito mais como uma ferramenta de apoio a um bom médico e uma ferramenta que possa garantir uma qualidade mínima de atendimento onde o especialista não está disponível”, declarou Hoff.

Meneleu, do Instituto do Câncer do Ceará, enfatiza o mesmo. “Há um reforço absurdo em algumas coisas que a gente já estava enxergando e medindo de maneira precária. Ganhamos tempo.”

Segundo os participantes, o fluxo de informação clínica, que demanda esforços na operabilidade entre sistemas; atualmente incompatíveis, e a notificação compulsória dos casos de câncer seriam essenciais para melhorar o diagnóstico por inteligência artificial.

Outro avanço fundamental é o uso de processamento de linguagem natural, que é a leitura direta, pelo computador, das anotações do médico. Isto já está em uso em iniciativas da Microsoft, segundo Sapori, e tende a melhorar no futuro próximo.

Fonte: Folha

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